Arte Contemporanea by Carlos Rezende “Monologue para Holly Armishaw” (in Portuguese)




Tudo o que me estrutura,
esses braços, essas pernas, essas ancas alongadas, cabelos, olhos, artérias horizontais, veias, todas essas peles, essa atmosfera entre nós.

O que você vê em mim sou você. Somos nós, unidos nesse amálgama indissolúvel.

Por trás dessas superfícies de vidro, me protejo dos seus ares, da sua confusão mental, dos seus absurdos, dos seus desejos insidiosos.

Se não ficar atento, posso te subjugar na fluidez das coisas que digo.

Um fado, um hit underground, a angústia enfeixada em palavras. Um abismo raso.

Quando mais profundas se tornam essas divagações, mais grave o meu desconforto, até quase me sufocar completamente.

Veja os meus olhos nos teus, misture meus olhos aos teus.

Fragmentos unidos num instante de vida, reflexos do meu prazer e da minha dor. 

Não chegue muito perto dessa superfície de vidro.
O que vê não é uma ilusão.
Diluídas minhas peles na sua pele,
ouço teus passos.

Façamos um pacto, revelo um pouco dos meus mistérios se você não me deixar nunca mais.

Não compartilhe mais meus segredos, não vá embora.

Não me deixe.
 
(escrito para H.A., minha amiga e grande fotógrafa canadense contemporânea

Carlos Rezende é arquiteto e artista plástico e escreve quinzenalmente à sextas
 nesta coluna


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